fragmentos

Archive for março 2009

 

distância

distância

tão perto, mas tão distante. 

diferentemente da geometria, a distância – no discurso amoroso – não faz relação somente com espaço físico. o intervalo entre dois corações é feito também do cansaço das rotinas, dos músculos doloridos e da falta de tempo para possibilidades.

os meios de comunicação têm braços compridos e encurtam a lonjura quando recebo seu email me confortando em um dia furioso.  mas essa distância física parece uma eternidade e um lugar pouco confortável para se estabelecer um lar.

estamos no começo do outono, a temperatura fica mais amena e tento ser constante. mesmo atravessando estados longínquos, eu jogo migalhas pelo caminho e ligo a noite te desejando “bons sonhos”  para lembrar para onde eu preciso voltar. 

no telegrama te escrevi um haicai. sobre a falta que você me faz.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: rotina.

sorrisos

sorrisos

no momento em que sorrimos para alguém, descobrimo-lo como pessoa, e a resposta do seu sorriso quer dizer que nós também somos pessoa para ele”.
antoine de saint-exupéry

entre todos o jeitos de comunicarmos aprovação, o sorriso é o sinal que tem a maior carga de ternura. por isso é tão confortável sua presença e a lembrança machuca pela falta.

ensaiar um sorriso é abrir a porta e convidar para entrar. permitir aproximação. deixar se envolver. sorrir com cumplicidade é o primeiro flerte quando ainda não são preciso palavras para dizer o que se deseja.

a melhor parte. é a sincronia dos cliques dos fotógrafos. conforto para o sofrimento. viraliza pelo contágio. alguns têm cheiro de lembranças inesperadas e os músculos contraem meio assim sem querer. outros são carregados nas trocas de olhares entre pessoas queridas. com alegria em beijos-de-oi e com uma saudadezinha em beijos-de-tchau.

carregar um sorriso nos lábios é a vontade de dias suaves, reciprocidades e toalhas fofas e secas.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: distância.

coração dormente

coração dormente

debaixo da tênue linha que divide o amor do ódio, existe um país neutro onde moram os corações dormentes. é um lugar onde não há ressentimentos, nem andamos em montanhas russas. o coração cumpre sua responsabilidade física, mas se ausenta no sentir.

como todos os músculos, ele também fadiga quando usamos demais. cansado de dissabores, renasce num coração dormente. nesse estado o coração não dói. é um navio à deriva. amigo da calmaria, irmão do tempo.

mas dizem que é um desperdício de forças e de coração tentar obrigá-lo a adormecer. dizer que o tempo o amolecerá. o coração é um músculo involuntário, ele bate mesmo sem você querer.

mas faço mil versinhos, para despertar de supetão seu coração dormente.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: sorrisos.

borboletas no estômago

borboletas no estômago

são insetos da ordem lepidóptera. possuem dois pares de asas membranosas que habitam e rodopiam histericamente no sistema digestório das pessoas apaixonadas.

esses rebuliços geralmente acontecem quando são encontradas pessoas que sempre imaginávamos nas músicas e poemas de amor que ouvimos a vida inteira, mas nunca tinham rosto, nome ou aquele perfume que quando passam pela gente, só faz suspirar.

borboletas no estômago é um sentimento relacionado ao amor e a ansiedade. esse panapaná sobrevoa nosso estômago em períodos estratégicos. nos 15 minutos antes de chegar ao ponto de encontro. enquanto o telefone toca e espero você atender. se seguro ou não sua mão no meio do filme. mas me conforto quando você me sorri, me aprova. e as borboletas parecem explodir pelo peito e saem voando preenchendo o mundo.

as borboletas são importantes polinizadores de diversas espécies de plantas e amores. mas por enquanto, prefiro que voem por outros jardins.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: coração dormente.


fragmentos

toda quinta-feira uma ilustração e um texto com interpretações pessoais sobre os fragmentos de um discurso amoroso. de roland barthes.

por marina faria e tiago yonamine